Eu acho o feio bonito. Claro, depende de que (ou qual) feio estamos falando. Em todo caso, na média eu gosto mais dos menos favorecidos. Não sei se é por que me incluo nessa categoria ou apenas simpatia. O fato é que o feio me atrai.
Dedé com 18 anos
O engraçado é que não estou sozinho. Isso é uma tendência. Cada vez mais nos identificamos com personagens feios. Isso se reflete tanto no cinema como na propaganda. Não incluo as mulheres de Dove nessa. Mesmo eles usando gordinhas, magrelas e sardentinhas, sempre escolhem o melhor espécime de cada tipo. Nenhuma delas pode ser considerada feia. Quando eu falo de pessoas menos favorecidas me refiro a galera feiosa mesmo. Posso enumerar alguns exemplos, rapidamente me chega a memória o Costinha e o Nicolas Cage. E não venham me dizer que eles são bonitos. Posso até aceitar o adjetivo charmoso. Nada mais que isso. Assim como esses dois, existem muitos outros bons representantes da feiura humana.
Eu com o cabelo pintado
Mesmo assim, observo que algumas marcas teimam em colocar apenas modelinhos bonitinhos em suas campanhas. Lembro de alguns fílmes de Skol onde os personagens principais eram bem peculiares. Gosto de todos eles e, além das boas idéias, coloco muito crédito nos atores feiosos para o sucesso.
O Diego Medina é engraçado. Mas nenhum príncipe. Por sinal se ele ver isso vai me matar.
Mesmo observando isso como uma tendência, a maioria das marcas procura sempre o mesmo tipo de modelos. Aquela carinha carimbada. A Jaqueline do BBB8. Quantos castings você não viu com ela ou tipos como o dela? Um reflexo disso é uma propaganda cada vez mais pasteurizada. Os modelos são os mesmos. Os rostos são os mesmos. Falta personalidade. A identificação com a base da sociedade é quase nula. Afinal, são muito poucos os privilegiados (como a minha mulher) que nasceram com atributos físicos de primeira linha.
Se bem que tem empresa que já se ligou nisso.
Quem são os personagens que lhe vem a memória quando falamos em propaganda? Carlos Moreno? Baixinho da Kaiser? Arakem o gol man? (desencavei esse) Todos eles são feios. Por que será? Uma cara feia marca. Eu que o diga.
Tudo bem, tenho que concordar que o velho truque de colocar mulher gostosa em cartaz de cerveja funciona comigo. Mas aí é uma função fisiológica. Agora me pergunte o nome de uma delas ou qual faz propaganda de que cerveja? Não lembro. Tudo vira paisagem. E digo mais, se a cerveja estiver quente não tem mulher gostosa que me faça beber. Bom, se bem que aqui na Alemanha é só assim que eu tomo. Não... não acompanhado de mulher bonita. Eu bebo é cerveja quente mesmo.
Semana passada fui em uma exposição muito legal. Fiquei realmente impressionado. Talvez, nas fotos, que venha a colocar aqui, vocês não consigam dimensionar o efeito que o trabalho do cara tem ao vivo.
Esta curiosa exposição foi aberta na Galerie Gillian Morris. Apesar do nome ser bonito, ela faz parte de um complexo bem alternativo, para não dizer chinelão, de galerias na Brunnenstrasse. São umas 15 no total, ocupando vários prédios e apresentando trabalhos de artistas iniciantes (ou não tão conhecidos).
Achei legal tanto a abordagem quanto o produto visual. O desgraçado não pecou no cuidado, teve uma idéia e tratou dela com carinho. O resultado é a exposição Staub de Jenny Michel.
Sua obra é toda baseada em poeira e sujeira. Os famosos dust bunnies que ficam nos cantos do apartamento ou na boca do aspirador de pó. A grande idéia não está em fazer uma escultura de porcaria, como um artista menos evoluido poderia pensar.
A diferença está em apresentar uma visão científica da poeira em seus diferentes tipos e procedências. É como aqueles quadros antigos de biólogos, que pegavam insetos, catalogavam e colocavam naquelas caixas de madeira com tampo de vidro. Além dessas ele também emoldurou pedaços de sujeira através de quadrados de acrílico. Exatamente como em um procedimento científico.
No fim, fica até engraçado ver as anotações onde observa-se desenhos e textos falando sobre o desenvolvimento da poeira. Um gigantesco mural de rascunhos para Doutor Frankenstein nenhum botar defeito.
É uma abordagem muito legal. Certamente inédita. O ambiente que o cara procurou para desenvolver o trabalho é muito rico. Meu avô tinha esses quadros com insetos de vários tipos: borboletas, cascudos, grilos, etc… Com essa referência na memória, não preciso nem admitir que a lembrança foi importante para minha afinidade na obra de Michel. Sim, existe uma beleza kitsch em tudo isso.
Para quem se interessar e estiver planejando uma viagem pela Europa, aqui vai a dica. A Galeria fica aberta de terça a sábado até as 18h. Não precisa pagar nada, é entrar e se divertir. Na mesma rua existem outros 17 espaços como esse, com exposições muito interessantes. Para quem tem alergia ou rinite não se preocupem. Apesar do trabalho ser sobre poeira o chão é bem limpinho.
Cumprindo com o prometido, vou postar meu primeiro comentário sobre uma exposição que está rolando aqui em Berlin. Tudo começou quando o Pernil e a Gabi vieram aqui me visitar. Resolvi fazer o tradicional caminho das galerias underground com eles. A primeira parada foi próximo ao Hackescher Markt, ainda caminhando pela Rosenthale Strasse, na Neurotitan Gallery & Shop.
O local onde fica a galeria é um tradicional Höfe aqui de Berlim. Costumo passar lá para olhar a loja que fica no fundo e curtir as paredes grafitadas por artistas conhecidos do cenário alternativo mundial. Nessa semana os caras estavam com uma exibição muito legal. O nome do projeto é “The Helping Hounds of Hell”. Apesar de ter esse nome diabólico, a intenção dos caras é das mais divinas: arrecadar grana para o Sage Hospital E.V no oeste africano.
Quando cheguei lá me lembrei na hora do Bráulio Kuwabara. Ou seria Kubaruba? Tanto faz, japonês é tudo igual mesmo. Ele é um nego que iria aproveitar muito mais que eu a galeria, com certeza. O japonês adora esses shapes de skate bem elaborados que viraram tela para artistas de rua. A exposição, na realidade, era só sobre esse tema. Vários caras emprestaram seu estilo para uma centena de shapes de skate. Todos artistas reconhecidos aqui na Europa e na Alemanha.
Não sei se sou eu que não tenho o conhecimento suficiente sobre o tema ou o trabalho lá exposto que era muito bom. O fato é que gostei de quase tudo. Até do cartaz bem simplão eu simpatizei. Apesar de me interessar muito por street art, não havia visitado um espaço dedicado a essa arte de skate. Uma mídia que é explorada desde a década de 80 mas que recebeu o reconhecimento a poucos anos. Hoje, criar uma estampa para uma prancha de madeira é muito mais cool que em um quadrado de pano.
A influência do estilo grafiteiro moderno é evidente. Mas as instalações e relevos adornando os skates são novidade para mim. Isso certamente é uma evolução na tradicional forma de apresentar os desenhos no shape, Também achei muito legal a interação de mais de uma base, formando uma gravura com uma dimensão e intencionalidade maior que o corpo tradicional da prancha. Meu destaque fica com os trabalhos de Boris Hoppek, Jon Burgerman, Blackjune, Havec, Kingdrips e Georg Rabensteiner. Nesse caso, tenho que concordar que a escolha é obviamente de caráter personalíssimo. Eu sou muito apegado a alguns traços e estilos que me atraem e influenciam meu trabalho pessoal. Certamente, outra pessoa escolheria outros para enumerar. Sendo assim, a lista completa dos artistas está aqui.
A exposição terminou no dia 3 de fevereiro, aqui em Berlim. Agora os caras transferiram toda a parafernália para Hamburgo, onde ficam até o dia 12 desse mês. Em breve, colocarei mais alguns trabalhos que me impressionaram, nas últimas caminhadas pelo Mitte e arredores.
Surrealismo é pouco. Voltando hoje para a agência, depois do almoço, me deparo com essa cena. Como sou generoso tirei umas fotos, mesmo sabendo que a Lisi vai me apavorar quando ver isso. Achei muito curioso. Como a mina fica sem roupa num frio desses?
Meu conselho, aproveitem até a patroa me obrigar a tirar do Blog.
Mori, a culpa foi do Emiliano. Ele quem viu primeiro e me obrigou a tirar as fotos.
Finalmente começo a entender melhor a cidade. Acho que até não apanhei tanto. Certamente, podia ter sido muito pior. Sei de pessoas que nem sairam de casa nesses meses de inverno. Tudo para evitar o frio de -7 graus e ter que falar alemão. Convenhamos, nem tava tão frio.
Motivado nesse meu amadurecimento, vou começar a publicar dicas de lugares que eu acho bacana aqui em Berlim. Assim, mais tarde, qualquer um poderá comprovar ou desqualificar minha opinião. Como sou um cara generoso, nada mais justo que dividir meu pouco conhecimento com meus amigos brasileiros. Obviamente, os meus textos, continuarão no mesmo estilo: cagando uma regra leve e filosofando muito. Tudo para manter a boa tradição do Blog.
Passando por essa introdução necessária, aqui vai a primeira dica: Weinerei.
O que eu gosto nesse lugar, é que ele reflete muitos dos aspectos do alemão berlinense do início do milênio. Um cara que tem tudo do alemão médio com um porém: é soltinho. Sendo mais claro, afinal ninguém precisa saber quais são essas características, vou falar sobre elas no próximo parágrafo.
Os alemães médios são organizados, frios e honestos, parecendo até mal educados em alguns casos. O berlinense jovem soma a essas características qualidades como a criatividade (não espontânea como a nossa mas do jeito deles) a sociabilidade, a curiosidade e a ousadia. Acrescente, ao contexto, a falta de grana de uma cidade que acaba de sair de um regime comunista. Agora misture, a essa massa, conhecimento de jovens de toda a Europa que vem para estudar gastando pouco. Coloque tudo para assar com cerveja, vinho e ervas aromáticas até uns 25 anos. Pronto! Você tem um berlinense do novo milênio.
Vinho braco
Vou me estender um pouco mais, nesse prelúdio de apresentação do Weinerei, para falar da região onde ele fica. O nome do bairro é Mitte, que nada mais é que o centro de Berlim. Como já comentei no meu texto sobre a Tacheles, é um lugar cheio de galerias de arte e muito intenso. Mesmo já transformado em um bairro charmoso, existem muitas partes dominadas pelos alternativos. Exemplo disso são todas as galerias próximas a estação Rosenthaler Platz. Principalmente algumas na Brunnenstrasse e Torstrasse ou outras um pouco mais afastadas, perto da Gipstrasse. Vou falar um pouco mais, desses redutos de arte alternativa, em meus próximos textos. Podem me cobrar.
Galera pegando um rango
Voltando ao tema desse comentário. O Weinerei fica em uma rua perpendicular a Brunnenstrasse, seu nome é Veteranenstrasse. Para se localizar melhor, aqui vai mais uma dica: esquina com a FehrberlinerStrasse. Se você é como eu e não consegue memorizar nomes de rua em alemão, vou facilitar mais ainda e postar o mapa.
A coisa mais legal do lugar não é a decoração ex-comunista-velho-charmoso, muito menos a diversidade de bebida ou comida. Na verdade, o lugar serve apenas vinho, água e uns dois tipos de suco. A comida se resume a um buffet, servido próximo das 20:00, com uma opção de prato, (prato principal, salada e pão). Para comer basta levantar-se, entrar numa pequena fila e montar o prato. Na última vez que fui era peixe com molho de requeijão e ervas, acompanhado de arroz. Tudo muito gostoso, feito no capricho mas nada especial.
Na verdade lá tudo quem faz é você. E esse é o charme. As bebidas ficam em um balcão logo na entrada. São umas 20 ou 30 opções de vinho (entre tinto, branco e rose). Acabou o copo? Se levanta e se serve vagabundo. Até aí tudo bem. Ainda mais levando em conta os preços do serviço aqui na Europa e a tradição comunista. Certamente, você já deve ter visto lugares assim na época de faculdade. O negócio é que esse perfil vai mais longe.
Quando você chega no Weinerei ninguém te aborda. Para os iniciantes o melhor é direcionar-se até o balcão e perguntar como a casa funciona. Como eu já fiz isso, aqui vai a descrição.
Coloque um euro no pote de moedas que fica logo ao lado dos cálices. Pegue um deles e encha o copo com o vinho de sua preferência. Depois beba e coma o quanto tiver vontade ou aguentar. No fim, coloque quanto dinheiro você acha que valeu sua noite dentro do vaso de vidro.
Se você leu sem atenção vou repetir a última parte: coloque quanto dinheiro você acha que valeu sua noite. Isso mesmo, você paga quanto quiser. Para mim isso é muito surrealismo. Quanto tempo duraria, um lugar desses, no Brasil? Acho que nem uma semana. A galera, no fim, iria roubar até a mobília velha. O mais maluco é que aqui as pessoas respeitam e pagam. Já presenciei nego, tentando dar uma de malandro, sendo questionado por outros frequentadores do porque de deixar apenas algumas moedas. Claro que o constrangimento foi todo dos espertalhões.
O que mais me envergonha é observar, que na maioria das vezes, os caras que tentam sair sem pagar falam espanhol ou português. Não tem como não ficar irritado com isso. Porque nós latinos temos a necessidade de passar os outros para trás? No fim das contas, quem paga é toda a sociedade. É a lei da selva, sempre vai ter um político mais esperto que toda a massa e vai levar muito mais grana no fim. Nós deveríamos abominar a malandragem.
Maradona na parede.
Nosso povo é fraco moralmente. Tudo é permitido levando-se alguma vantagem. É por esse motivo que ninguém se abala de sair de casa quando sabe que algum deputado ou senador ficou rico as custas de nosso trabalho. Toda sociedade tem o rabo preso. Telhado de vidro.
Para mudar nosso país devemos começar com as pequenas coisas. Não jogar papel no chão ou não aceitar o que não é devido. Minha esperança está nos poucos exemplos de seriedade e honestidade que encontro sempre junto das camadas mais necessitadas. Felizmente existem pessoas assim no Brasil.
Para finalizar vou fazer um pedido simples. Se vierem para Berlim e passarem pelo Weinerei, se comportem como alemães do novo milênio.
Eu acredito cada vez mais e, ao mesmo tempo, menos no regionalismo. Pode parecer estranho, para nossa cabeça ocidental bipolarizada, acreditar simultaneamente em dois extremos. Felizmente, os malucos de plantão podem encontrar abrigo no pensamento Zen, que estimula esse tipo de questionamento abstrato. Apesar de o assunto ser introduzido com conceitos tão cabeludos, vou fazer uma explicação simplificada que até os mais racionais poderão acompanhar. Para isso, devo falar melhor da idéia de regionalismo.
Regionalismo, nada mais é que uma busca ou identificação com algum elemento comum em determinado espaço geográfico. O gaúcho com o chimarrão é um exemplo. A figura do homem grosso, barbudo, tomando chimarrão de bombacha é um clássico do regionalismo. Junto com expressões populares, gestual e indumentária características, formamos uma imagem de um ícone de determinado lugar. Sempre que procuramos alguma identificação, num ato de saudosismo de nossas raízes, nos apegamos a esses clichês que definem nosso estado ou nacionalidade.
Tendo introduzido a idéia de regionalismo cabe a mim falar sobre o zen desse conceito. Assim, vamos discorrer um pouco sobre os motivos que me fazem acreditar cada vez mais nessa idéia. Quando viajamos, é fácil encantar-se pelos diferentes aspectos que formam uma determinada cultura. Quanto mais distante e exótica melhor. Essas características são profundamente enraizadas em nosso ego. Passamos a incorporar e definir nossa identidade em função desses clichês. É normal encontrarmos baianos mais baianos em São Paulo que em Salvador. Parece que quanto mais nos afastamos de nossas origens, maior é a necessidade de procurar aspectos que nos mantenham próximos de nossa terra.
Tenho alguns amigos que passaram por esse processo de redescobrimento cultural, depois que saíram de sua terra natal. O Alemão Fabrício, por exemplo. Ele fez uma viagem muito bacana com a Tuca, sua namorada, por todo o Conesul (região sul da nossa América). O objetivo era óbvio, resgatar sua origem que começava a se confundir com a de outros estados e apresentar sua herança cultural a amada companheira. Isso prova como o regionalismo acaba sendo um aspecto importante na formação de nosso ego e personalidade. O problema é quando ficamos tão afeiçoados e presos a essas características que acabamos por rejeitar outras culturas. Agarramo-nos a determinados conceitos que muitas vezes estão equivocados. Isso, na opinião desse mero maluco que vos escreve, tem outro nome: xenofobia.
Como gaúcho crítico que me tornei, acabo sendo um dos maiores cutucadores de ferida do meu estado. Acho que o gaúcho se tornou um povo xenofóbico. Temerário do novo, acabamos por rejeitar cultura que venha com a intenção de renovar ou refrescar nossas cabeças fechadas e orgulhosas. Tudo que vem do Rio Grande do Sul é melhor. Somos fortes e não precisamos de mais ninguém. Negamos nossa brasilidade em função de um regionalismo fervoroso. A balança começa a se inclinar para o outro lado. Parece que os gaúchos não enxergam que o Estado está cada vez mais pobre. Continuamos baseando nossa economia nos mesmos commoditiesde 100 anos atrás. Negar o novo não é honrar os heróis farroupilhas, é justamente abandonar os valores que sempre fizeram de nosso estado um exemplo de força e criatividade.
É aqui que começa o outro lado da moeda. Eu só consigo entender esse aspecto nefasto do regionalismo pois abandonei parte dele. Eu estou aberto a novidades e culturas. No nosso mundo globalizado é complicado identificar-se apenas com uma região. Depois de morar 5 anos em São Paulo acabei ficando em um limbo. Os gaúchos não me reconhecem mais como um irmão e os paulistas ainda me enxergam como sulista. Aí é que vem a questão de minha descrença no regionalismo. Acho que ele existe mas, felizmente, não fica restrito a apenas um lugar. O negocio é absorver o melhor de cada estado e formar sua própria personalidade, identificada mais com os seus conceitos morais do que propriamente com um espaço geográfico.
Cada lugar onde moramos ou vivemos, deixa marcas profundas. Acabamos incorporando aspectos de vida de todas as regiões por onde vivemos. Vou falar sobre mim para exemplificar. Sou gaúcho mas não sou viado (até piadinha ridícula de paulista já sei fazer), tomo chimarrão e asso um churrasco como poucos. Apesar disso, começo quase todos os meus raciocínios com “então”. Outra coisa, peguei raiva de corinthiano, sentimento que era restrito ao Grêmio. Quando morei na Inglaterra comecei a apreciar uma boa Guinness irlandesa, escutar techno e ir em Raves. Dos meus amigos baianos herdei a expressão “da pourra”. Do tempo que morei no Rio carrego um pouco da malandragem e do gosto por praia. Agora aqui em Berlim comecei a tomar weissbier, comer wurste em breve poderei trocar os artigos. Isso sem falar que minha religião é indiana, absorvida e difundida no Himalaia, Japão e China. Parece piada.
O grande lance disso tudo é estar aberto a experiência. Sou um pouco contra os caras que mudam de cidade e acabam colocando-se em uma bolha. Aqui na Alemanha é muito comum. Pela dificuldade da língua, 50% dos estrangeiros optam por não estudar o alemão e acabam por se relacionar apenas com amigos de mesma nacionalidade. Esses acabam perdendo uma das coisas mais legais de morar em outro lugar. O aprendizado cultural e a modificação dos costumes acaba por fortalecer as raízes das quais nos orgulhamos mais. Eu acho que sou mais gaúcho hoje, depois de 6 anos fora da terrinha, do que quando morava por aquelas bandas. A maior prova dessa gauchismo está nesse vídeo. Não consigo assistir sem chorar.
Karma é um conceito muito antigo, presente em muitas religiões orientais. Para quem não sabe o que é vou fazer uma explicação rápida. A idéia é que toda ação tem uma reação. Atitudes negativas acumulam demérito que será cobrado no decorrer de uma vida (ou várias). Durante muito tempo, minha educação judaico-cristã não me deu acesso a esse ensinamento. Felizmente hoje, conheço e esforço-me ao máximo para acumular méritos através de atitudes positivas. Desde que comecei a observar a vida por esse ângulo, não parei empilhar certezas sobre sua existência. Ontem o karma deu-me mais uma lição e a roda da vida completou mais uma volta. No entanto, para falar sobre esse aprendizado, preciso voltar um pouco no tempo, para os anos de 2002 e 2005.
Ser colorado nem sempre foi uma opção pela alegria, na verdade era sinônimo de sofrimento. Passei uma década vendo meu rival empilhar títulos e o meu time com uma administração vexatória. Era mais fácil o Inter frequentar o inferno da segunda divisão do que ganhar algo importante. Após uma nova ameaça de rebaixamento em 2002, novamente livrando-se da queda apenas na última partida (desta vez fora de casa, contra o Paysandu, em Belém), o Internacional recuperou a hegemonia do futebol gaúcho, com a conquista de quatro estaduais consecutivos (2002, 2003, 2004 e 2005). Em 2005 o Inter formou uma grande equipe, liderados por Muricy Ramalho e Fernandão os anos negros pareciam ter ficado no passado. Apesar dos excelentes times do Corinthians (Tevez, Masquerano e Nilmar) e São Paulo (Campeão da América e do Mundo) o colorado liderava o Brasileirão e começava a abrir larga vantagem, em relação aos outros postulantes ao título. Infelizmente, essa expectativa não se confirmou.
Toda a torcida e dirigentes do Corinthians, além de jornalistas e radialistas, sabiam que o Timão havia se tornado uma enorme lavanderia. Incrivelmente, uma chuva de dólares sujos caíam, como por milagre, no Parque São Jorge. Craques, com salários acima da realidade do futebol brasileiro, desfilavam com a camisa do time mais popular de São Paulo. A arrogância e o vale-tudo começaram a ser a marca registrada do Corinthians. A torcida e os dirigentes não viam problemas em tudo isso, claro, o importante era levantar a taça. Ninguém jamais cogitou a possibilidade do karma. Não imaginavam que, ações como essas, apenas sujavam o time e ligavam a marca, de um dos clubes mais importantes do mundo, a máfia Russa. Acho que apenas isso já seria o suficiente para o karma do Corinthians crescer negativamente. Para minha surpresa, foi apenas o começo de um longo caminho do céu ao inferno. Nesse exato ponto da história, o destino colocou colorados e corinthianos em lados opostos. Os acontecimentos que irei narrar agora mudaram a trajetória recente dos dois clubes. E o karma de ambos também.
Depois de anos de sofrimento os colorados ainda tinham muito o que chorar. Ninguém acreditou quando viram o título do Campeonato Brasileiro ser tirado do Internacional através de uma manobra extrajudicial, na qual o Corinthians foi o maior beneficiado. Dentro de campo, “o time do povo do Rio Grande do Sul” fez mais pontos que seu adversário. Porém, um suposto escândalo envolvendo manipulação de resultados abriu uma brecha para que o Corinthians disputasse novamente duas partidas das quais havia perdido. Não bastasse isso, no confronto direto entre as duas equipes do dia 20 de novembro, no Estádio do Pacaembu, o árbitro Márcio Rezende de Freitas anulou um pênalti sofrido por Tinga e, não satisfeito, expulsou o jogador colorado, que era um dos melhores da partida. Como resultado final, o clube paulista acabou ficando com o título, com apenas três pontos de vantagem sobre o Internacional, vice-campeão. Nessa época eu morava em São Paulo e acompanhei o constrangimento com que os paulistas comemoravam o titulo. O festa foi comedida. Não pareceu uma festa pela conquista de um Brasileirão. Mesmo assim, os torcedores, em sua maioria, seguiam apoiando a política de golpes baixos da diretoria do Timão. Aos colorados só restava lamber as feridas.
A compensação colorada viria no histórico ano de 2006. Treinado por Abel Braga, o time colorado sagrou-se campeão da Copa Libertadores, no dia 16 de agosto de 2006. Mais de 57 mil torcedores lotaram o Beira-Rio para assistirem ao emocionante empate em 2 a 2 contra o São Paulo (campeão mundial em 2005), colocando assim o clube colorado na galeria dos campeões da Libertadores. O dia 17 de dezembro ficará marcado na memória de todos os colorados como aquele em que o Inter viveu a maior glória de sua quase centenária existência. Alem dessa incrível façanha na América, os colorados ainda comemoraram o titulo de campeão mundial em Yokohama. Derrotando para isso o poderoso Barcelona, liderado pelo ex-gremistaRonaldinho Gaúcho (eleito duas vezes melhor jogador do mundo). Parecia até final de filme de Hollywood. O que mais o destino poderia reservar para o colorado? Para o Internacional a história parecia chegar ao fim mas ainda existia um time a enfrentar seu karma.
No dia 2 de dezembro de 2007 o Corinthians encarou seu destino de frente. Depois de denúncias no ministério público, provas cabais de uma diretoria envolvida em negócios sujos, o pior ainda estava por vir. Nessa data o Timão decidia sua vida, na primeira divisão, jogando contra o Grêmio, no estádio Olímpico. Ironicamente dessa vez, torcia também por uma vitória do Internacional frente o Goiás, no estádio Serra Dourada.
O Inter começou ganhando e o Corinthians perdendo, com um gol de Jonas no primeiro minuto de jogo. Esses dois resultados deixavam os paulistas na elite, apesar da derrota. No exato momento em que o Goiás empatou o jogo o Corinthians marcou seu gol, no Olímpico. Assim acabou a primeira etapa.
Os corinthianos torciam mais pelo Inter que para o próprio time. Pareciam acreditar mais nas qualidade do colorado que nas forças de seu jovem elenco. Foi aí que um pênalti foi marcado favorável ao Goiás. Para desespero da Fiel, o juiz mandou voltar a cobrança defendida duas vezes pelo goleiroClemer. Na terceira tentativa, depois da desistência e incompetência de Paulo Baier, Élson fecha a tampa do caixão corinthiano. O time do Parque São Jorge irá amargar um longo ano na segunda divisão.
Após o jogo torcedores, jogadores e dirigentes do Corinthians acusaram os colorados de amolecer o jogo contra o Goiás. Acusação absolutamente incoerentes. É improvável que o Internacional entregasse o jogo no Serra Dourada. Mesmo tendo um time superior ao dos esmeraldinos, é histórica a dificuldade vermelha em Goiânia. Além do mais seria incompatível, para um clube que sofreu tanto nas mãos da injustiça, se aliar a mesma escola podre, que tanto o condenou no passado. Espero do fundo do coração que isso não tenha acontecido. Porque se for verdade, a bola pune. E o Karma também.