terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Gastarbeiter

Imagine-se morando no Brasil e não falando um português perfeito. Trocando alguns artigos e algumas concordâncias. Além de não falar tão bem a língua, some-se a isso o fato de ser de uma minoria étnica. Como indianos na America do Sul, por exemplo. Tendo feições tão distintas dos conterrâneos, ser reconhecido e por conseqüência discriminado é fácil. Por outro lado, você tem um passaporte Brasileiro, nasceu no Brasil (no Rio de Janeiro) e não fala nenhuma outra língua além de português. Talvez algum dialeto indiano, mas com forte sotaque regional carioca. Por essa razão, nem mesmo na Índia, seus pares olhariam para você como igual. Seria um eterno alienígena social, buscando uma identidade impossível de ser definida em uma nacionalidade.

















Talvez ,com essa breve introdução, seja mais fácil explicar como é a vida dos centenas de milhares de turcos que vivem em Berlim e em toda Alemanha. Seus pais vieram, por convite, para trabalhar no período de 1950 ao fim da década seguinte, conhecido como Wirtschaftswunder (o milagre econômico alemão). Os acordos bilaterais com governos de nações próximas, principalmente depois do Muro de Berlim (1961), que diminuiu a migração de alemães orientais a uma escala próxima a zero, era uma necessidade. A total falta de mão de obra masculina, depois da guerra, foi uma das razões. Outra foi dificuldade de adaptação de outros povos convidados, como italianos (1955) e gregos (1960), que tinham total preferência do governo. Assim, em 1961 foi fechado o acordo que mudaria a vida da cidade para sempre. Mesmo com os acordos seguintes, em 1964 com Portugal e 1968 com Iugoslávia, o panorama dos imigrantes mudou muito pouco. Nenhum outro povo pareceu gostar tanto de Berlim como os turcos. Ou talvez a opção em sua pátria parecesse ainda pior, os motivos são irrelevantes nesse caso. O importante é que eles vieram e ficaram, deixando gerações subseqüentes de turco-alemães.













A maioria das famílias que chegaram não tinha intenção de ficar na Alemanha por um longo período. Os Gastarbeiter (como se denominavam os primeiros imigrantes) vieram, como muitos, com a clara intenção de juntar dinheiro para, em um curto espaço de tempo, voltar para a Turquia. O Período do contrato era de dois anos, para incentivar a vinda de novos imigrantes e dificultar a permanência. Infelizmente, para eles e suas famílias, a conjuntura política em seu pais de origem apenas piorou com o golpe militar. O que antes era provisório, virou permanente. Mesmo que para muitos tenha sido bom, pois com a ditadura inicia-se um período de estado laico, menos atrelado a religião muçulmana.



















Durante a década de 80, a primeira geração se consolidava. Além da busca pela identidade, outros problemas eram enfrentados diariamente pelos recém integrados. Os bairros mais próximos do muro e, por conseqüência, menos valorizados eram os escolhidos pelas famílias turcas. Jipes militares americanos rondavam as ruas do Kreuzberg. Nessa mesma época, filhos de primeira geração desses Gastarbeiter se reuniam em gangues. Uma das mais conhecidas eram os 36 Boys. Na década de 80 eles eram “apenas” 50, numero que cresceu para 200 nos dias atuais.













Nos anos 80, diferente do presente, os dias eram certamente mais duros. As preocupações não se resumiam a vender a coleção de roupas da grife 36 Boys, como os integrantes de hoje fazem. Entre as obrigações dos integrantes mais antigos estava o enfrentamento com as gangues de extrema-direita neonazistas que ocupavam o centro da cidade em Breitscheidplatz na Tauentzienstraße. Essa juventude branca anti-imigrantes, skinheads, era apenas mais uma das muitas formas da sociedade demonstrar sua insatisfação com a chegada dos convidados. Na verdade, a essa altura, não mais “Gastarbeiter”. Como filhos desses imigrantes, mas já nascidos na Alemanha, recebiam a denominação “Aufenthaltsberechtigung”, ou em bom português “direito de residência”. Assim, eram apenas uma minoria segregada, com diferenças educacionais e religiosas, buscando avidamente atingir um espaço melhor na pirâmide social.



Um claro exemplo é Killa Hakan. Hoje, um dos mais conhecidos MC Turcos de Berlim. Preso durante a juventude por assalto a mão armada e um dos fundadores dos 36 Boys, encontrou a redenção no RAP. Como em muitas comunidades negras nos EUA, a cultura Hip-Hop é a forma de expressão da minoria na Alemanha. Com a diferença das letras em turco. Minto, nem todos cantam na língua dos pais.

















Alpha Gun é outro clássico exemplo de segunda geração de “Gastarbeiter”. Nascido em Berlim, ele é para Shöneberg 30 o que Killa representa para o Kreuzberg. Essa área, delimitada pela Kunfürsterstraße, no norte, Grunewaldstraße, no sul, e S-Bahnhof Yorkstraße, no leste, foi onde cresceu Alpha. Considerado e aclamado o maior MC em língua alemã. Sua história não é muito diferente da de muitos outros filhos de imigrantes. Começou vendendo maconha para colegas de escola. Foi traficante até idade avançada quando conheceu o “rapper” alemão Sido, para quem vendia erva. Acabaram gravando algumas musicas juntos o que mudou o destino de Alpha.



Claro que não só a música que proporciona oportunidades para esses imigrantes. A educação é a principal redenção. Assim o governo investe na integração através da língua alemã e da história. As escolas estão mais preparadas para a terceira geração e o governo incentiva todos imigrantes e filhos a participarem de cursos de integração. Subsidiados pelo governo, eles são muitas vezes, a única opção para os estrangeiros aprenderem mais sobre o pais e, principalmente, a língua.

Através desse esforço, as diferenças que eram abissais, hoje, mesmo existindo, são menores. Bairros como o Kreuzberg, tipicamente turcos, hoje abrigam uma larga e crescente população de outros imigrantes, inclusive alemães. A terceira geração cresce em um ambiente mais globalizado e multicultural, diferente dos pais e avós que viviam na Turquia, mesmo dentro da Alemanha. Hoje, diferente das gerações anteriores, mesmo com a descendência turca, os filhos dos filhos já falam o alemão sem sotaque.

5 comentários:

Fabricio e Viviane disse...

Presenciei brigas entre turcos e alemães em Munique, em que discutiam exatamente o que tu escreveste no texto. Penso que, infelizmente, a xenofobia já é cultural e está presente em todos os povos e em todas as nações.
Vivi

marie disse...

Adorei. Passou um filmezinho na minha cabeça de quando estive em Kreuzberg.. Adorei saber mais dessa parte da história!

bejocas,

marie

João Braga disse...

Fala, Locão. Quero ver vc com essa cara de semi-turco falando “Aufenthaltsberechtigung”. Quem sabe os filhos dos teus filhos... Abs,

Luanna disse...

adorei!

mutantix disse...

Marcão, faz um "ajoelha e chora" 2 - a missão. Ontem eles tomaram de novo, dessa vez com choradeira!
Abração!
Raul.