quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Adidas Dolomites





No meio do nada.






Em virtude de possuir um layout bem caprichado, fui convidado a conduzir o processo de produção de uma campanha do meu chefe. Não costumo aceitar esse tipo de proposta. Primeiro pelo tamanho da responsabilidade, segundo por não gostar muito do conceito em que iria trabalhar e em terceiro não sentir-me confortável em emprestar meu talento para outros Diretores de Arte. Sou um pouco individualista nesse aspecto, tenho que admitir. Mas qual o DA que não o é? Cada um no seu quadrado.














No fim das contas, não tive muito a possibilidade de negar o convite. O próprio Emiliano concordou que seria muito deselegante. Também não posso reclamar. O trabalho tinha tudo para ser uma experiência maravilhosa. O produto era adidas outdoor e as fotos teriam como cenário uma das cadeias de montanhas mais lindas da Europa, os Dolomites.














Cercado por picos nevados, lagos e rios de águas turbulentas e claras, na divisa entre três países, o palco de nossa campanha estava longe de ser uma tortura. Isso sem falar que os modelos seriam os nacionalmente conhecidos Huber Buam. Dois irmãos de origem bávara especializados em speed climbing, além de outros tipos de escalada radical e base jumping. Realmente, pensando melhor, não tinha do que reclamar. Vai que Deus castiga.



Sai de Berlim, no dia 18 de setembro 7h da manhã, rumo a Viena. De lá peguei um avião para Innsbruck onde um micro-ônibus esperava para conduzir-me até algum ponto distante em meio a muita neve, ar rarefeito e frio. Muito frio. Minha expectativa era grande. Estava um pouco desconfortável por ser o único a não falar o alemão fluente. Era uma campanha nacional, com equipe alemã e sendo orientada por um gringo (eu) que não dominava o idioma e sem muito contato com o ambiente de montanhismo. Certamente não é das tarefas mais fáceis. Mas quem disse que a vida é fácil? Azar o deles, não vou aliviar na desses alemães. Até porque não pedi para estar aqui.














As cidades nos alpes, ainda do lado austríaco, são idênticas em arquitetura a Gramado e Canela. Apenas nesse aspecto, diga-se de passagem, pois a beleza natural é incomparável. Tive um breve déjà vu. Lembrei dos anos em que viajava todos os finais de semana para a serra gaúcha com meus pais. Bons tempos em que minha única responsabilidade era com minhas notas no colégio. Agora estava com um orçamento milionário apontado diretamente para o meu ânus. Perdão pelo palavreado mas é a mais pura verdade.














Fincamos nossa base de operações em uma cidade, do lado italiano entre 2000 e 2500 metros de altitude . De lá partiríamos diariamente aos locais onde seriam as fotos. No sábado, dia 19, saímos às 8h da manhã. A locação para as primeiras fotos ficava a “apenas” 3000 metros de altura. O frio é cortante, o vento não encontra obstáculos e a neve, antes intocada, vira água em contato com as botas quentes, penetrando fundo no meu pé. Não é das sensações mais agradáveis, certamente, mas o visual é incrível. Encontro-me cercado por penhascos por todos os lados. Quando olho para baixo a vertigem é tão grande que prefiro ficar a uma distância segura de 5 metros do abismo. Sim, além de todos os detalhes já comentados que me colocavam em desvantagem como condutor do trabalho, ainda tenho medo de altura.














As primeiras fotos foram com Thomas Huber. O mais velhos dos irmãos. O cara é realmente durão. Enquanto todos escondiam-se em muitas camadas de roupas, Thomas desfilava com uma camisa de manga curta. Não porque ele queria, que fique claro, mas pela necessidade dos layouts e motivos de verão da campanha. Em todo caso não reclamou nem uma única vez do frio. Eu falei que não aliviaria na dos alemães.




Diretor de Arte ou modelo?







Um detalhe interessante é que hoje aprendi algumas coisas sobre a altitude. Sempre pensei que esse esquema de vetar jogos a mais de 2500 metros era frescura. Não é. Vocês não imaginam como é difícil respirar aqui. Qualquer caminhada é uma tremenda dificuldade. Demoro o dobro do tempo para recuperar-me. Sinto-me fraco. Quando puxo o ar para meus pulmões é como se não viesse nada. Definitivamente, altitude e futebol não combinam.


O primeiro dia de fotos fluiu de forma tranqüila. A nossa sorte foi que o frio deu uma aliviada na tarde. O sol saiu por entre as nuvens, radiante. Além de ajudar na temperatura a luz das fotos melhorou muito. Parece que Deus resolveu olhar por esse brasileiro mais uma vez.



Aproveitei a oportunidade de estar com Thomas, um dos mais experientes e malucos alpinistas da Alemanha, para enfrentar meu medo. Resolvi, em um momento de loucura, escalar um dos pequenos cumes da região. Cheguei a meio metro de um abismo de 1 km de altura. Claramente estou me borrando na foto. Thomas queria que eu chegasse ainda mais perto mas era impossível. Sentia minhas pernas moles e minha visão ficando escura. Fiquei realmente com medo de apagar e só acordar na presença de São Pedro. Pelo menos deu para mostrar que não sou um guri de apartamento.



Tenho medo de altura.
Imagina se não tivesse!

Marco Loco and Thomas Huber,
esses tem bolas de titâni0.



Alexander e Thomas são o tipo de atletas top de linha que eu gosto de trabalhar. Assim como Petr Cech, eles são camaradas, simples e interessados em dar o melhor de si. Odeio divas. Sinceramente não tenho paciência alguma. Sejam eles fotógrafos, atletas ou artistas. Ninguém está naquela posição por favor. O negócio é profissional, valendo Brahma. Se não está interessado basta não aceitar a proposta de trabalho. Simples assim.














Continuando a descrição. O segundo dia foi bem relax. Como o primeiro havia sido intenso, não precisamos nos puxar tanto. Assim, deixamos para fazer algumas fotos mais experimentais para o arquivo da adidas. Como sou um workaholic comecei a layoutar alguns dos motivos da campanha. Apesar de ainda ter muito o que clicar, principalmente falando em paisagem. Estava difícil de esconder minha satisfação com os primeiros testes. A galera respeitou muito quando, no fim do dia, já estavam executadas os dois primeiros anuncios da campanha.


A partir do quarto dia de viagem nos dedicamos a procura de paisagens. Dispensamos mais da metade da equipe, incluindos os Huber Buam e partimos para algumas das locações mais belas da viagem. Seriamos agora 4: David (atendimento), Stefan (fotografo), Peter (produtor de locações) e eu. Pegamos o carro e passamos a circular entre os três paises: Áustria, Suíça e Itália. A primeira parada seria do lado Suíço em uma região de neves eternas e geleiras a 4000 metros de altura.




Marco Loco e David Barton a 3000 metros.





Dormimos em um pequeno hotel para alpinistas e acordamos bem cedo. Infelizmente o tempo não estava muito bom. A quantidade de neve que caiu na madrugada era absurda. Acabou atrapalhando nossos planos de fotografar um lago na região. Assim, entramos no carro e partimos para o outro lado da montanha onde, segundo informações, o sol brilhava a todo vapor.

















Essa foi a rotina nos dias que se seguiram. Pegar o carro e circular vales e montanhas a procura das paisagens mais bonitas em momentos de luz propícia. Foi muito educativo ver as geleiras, que antes se estendiam por quilômetros, estarem resumidas a pequenas formações. Tímidas elas suspiram seus últimos momentos e fazem com que estações de esqui obriguem-se a subir cada vez mais alto na montanha.



























O segundo hotel em que ficamos, na Suíça, era ainda mais distante da sociedade. Como diria David Barton, nosso atendimento: “in the back arse of nowhere”. Ao lado de uma geleira, ficava aberto durante apenas 3 meses do ano. Nos demais não existia possibilidade. Além de fecharem as estradas até o alto da montanha, ele ficava coberto até o telhado de neve. Aproveitamos e acordamos, mais uma vez, bem cedo, para fazer mais algumas fotos de paisagem, essas seriam perfeitas para os motivos de inverno.



























No mesmo dia empacotamos as coisas para voltarmos a Berlim. Apesar da beleza natural, da calma, do ar puro e da comida farta, estava feliz de voltar para minha casa. Faziam já 7 dias que andava em uma paisagem do qual não pertencia. Como um vírus pressionado a abandonar o hospedeiro, sentia-me alheio ao ambiente. Mesmo assim era tomado por uma tristeza. Não sei se algum dia retornarei a esse lugar inóspito. Por mais estranho que possa parecer estava dividido. Depois de refletir um pouco enfim encontrei alento em um pensamento. Ano que vem será fotografada a campanha 2010. Quem sabe um reencontro.

6 comentários:

lisilahorgue disse...

Mori acho que vais voltar lá sim. Não quis levar a esposa desta vez... na próxima não escapa...

marie disse...

amigo!

amei esse post!!! Ri muito. Pareceia que eu via tu contar a história toda! Que experiência bacana!

bejocas e continua nos alimentando dessas histórias bárbaras!

marie

Felipe Mortara disse...

Fala Loco, tudo em paz?
Cara nem seı se tu lembra de mım la da lewlara, mas eu vıra e mexe leıo teu blog e dou mta rısada. Conteı pra Marı Olıbonı que eu ıa passar por ae e ela falou pra eu te procurar...

To vıajando ja ha quase 6 meses e devo chegar em Berlım la pelo dıa 13 de outubro. voce vaı ta por ae? rola tomar uma cerva?
tenho um blogzınho meıo fuleıro
http://projetofui.blogspot.com/

fıca na paz
abraco

leoprestes disse...

Maravilha de fotos e de post!

Fernando Pellizzaro disse...

Fala Marco, beleza?

Sou o Zaro do Through Lens Gallery.
Valeu pelo comentário.E sempre que puder acompanha o projeto lá.
Achei do caralho esta ação da Adidas. Mandaram ver mesmo.


Abração
Zaro

antonio coelho disse...

Muito bom, saber que um tipo que fala a mesma lingua que eu, fez essa reportagem com os Huber!

Grande abraço,
acoelho